
Quando o GAECO decidiu apertar o cerco em Turilândia, o nome que rapidamente passou a concentrar a atenção da investigação não foi apenas o de políticos locais. No coração da engrenagem financeira do esquema, segundo o Ministério Público do Maranhão, estava um personagem que operava longe dos holofotes da política, mas com acesso direto ao dinheiro público: o médico neurocirurgião e empresário Eustáquio Diego Fabiano Campos.
A Operação Tântalo II, deflagrada em 22 de dezembro de 2025, resultou na prisão de Eustáquio, além do prefeito, da vice-prefeita e de vereadores do município. Para o MP, o grupo atuava de forma organizada, com divisão clara de funções. Enquanto agentes políticos garantiam contratos e sustentação administrativa, a parte financeira do esquema ficava concentrada em operadores externos, responsáveis por movimentar, pulverizar e dar aparência legal aos recursos desviados.
É nesse ponto que o médico ganha protagonismo. Levantamentos em bases oficiais mostram que Eustáquio mantém uma estrutura empresarial ativa no setor da saúde, figurando como sócio-administrador da Center Medical LTDA e da Med Service S/S, além de integrar o quadro societário da Odontoclinic. Empresas formalmente voltadas à prestação de serviços médicos, mas que, para os investigadores, também serviam como canais de circulação de grandes volumes de dinheiro público.
A Med Service, em especial, extrapola o mapa de Turilândia e conecta o caso a outro centro político relevante do Maranhão: Chapadinha. Desde 2022, a empresa passou a manter contratos contínuos com a Prefeitura do município, administrado pela prefeita Belezinha (PL). De lá para cá, os repasses não apenas se mantiveram, como cresceram de forma acelerada.
Os números falam por si: aproximadamente R$ 3,5 milhões pagos em 2022; um salto para R$ 11,8 milhões em 2023; cerca de R$ 9,5 milhões em 2024; e, apenas em 2025, mais de R$ 7,5 milhões já liberados. No total, a Med Service recebeu R$ 32,5 milhões dos cofres da Prefeitura de Chapadinha — valores que agora entram no radar das investigações.
Enquanto o Ministério Público avançava silenciosamente com as apurações, Eustáquio Diego Fabiano Campos transitava em outro ambiente de poder. Em 18 de novembro de 2025, pouco mais de um mês antes de ser preso, ele foi homenageado no Plenário Nagib Haickel, da Assembleia Legislativa do Maranhão, com o Título de Cidadão Maranhense. A honraria foi proposta pelo deputado estadual Aluízio Santos (PL) e entregue durante sessão solene presidida pela deputada Fabiana Vilar, conforme registro oficial da ALEMA.
O contraste entre os fatos é brutal: de um lado, um operador financeiro apontado pelo GAECO como peça-chave de um esquema de desvio de recursos públicos; do outro, o reconhecimento formal do Parlamento estadual, concedido quando as investigações já estavam em andamento, ainda que sob sigilo.
O avanço da Operação Tântalo II transforma o episódio em algo maior que um escândalo local. Os contratos milionários firmados com empresas ligadas ao médico, a circulação de recursos entre municípios distintos e a concessão de honrarias oficiais colocam sob escrutínio não apenas agentes políticos, mas também a rede de relações que sustenta esse tipo de arranjo.











