
Por trás de cada “story” bem editado, com trilha sonora motivacional e cortes rápidos de drones, existe uma São Luís que não cabe no feed. A capital maranhense, sob a égide de Eduardo Braide, viveu um fenômeno curioso de física política: a matéria se transformava conforme a tela que a exibia. Se no Instagram as escolas reluziam com tintas frescas, no mundo real o teto desabava sobre o futuro dos alunos. Se no vídeo o asfalto das avenidas principais parecia um tapete, nos bairros de periferia o cidadão ainda aprende a nadar para chegar em casa.
Eduardo Braide não foi apenas um prefeito; foi um influencer sentado na cadeira do Executivo. Sua gestão foi o triunfo da maquiagem sobre a manutenção, do paliativo sobre o estrutural.
O colapso do transporte público é, talvez, o monumento mais honesto dessa herança. Enquanto a prefeitura despejava 18 milhões de reais em poucos dias para a “solução” improvisada de carros de aplicativo durante as greves, o sistema de ônibus definhava em sucata e contratos rompidos judicialmente. O passageiro de São Luís, que espera horas em paradas desabrigadas, sabe que o subsídio não resolve a dignidade de quem depende de um consórcio que faliu aos olhos do poder público.
Na saúde, o roteiro se repetiu. A reforma do Socorrão, celebrada com fogos digitais, sucumbiu à primeira chuva forte. O alagamento interno da unidade foi o batismo da realidade sobre a propaganda: de nada vale a fachada nova se o corredor continua sendo o leito final de quem não encontra insumos ou atendimento.
E o que dizer de quem garante a ordem? A Guarda Municipal, hoje, é o retrato da precarização. Servidores desarmados em zonas de risco, viaturas sem sirenes e o fantasma da retaliação pairando sobre quem ousa denunciar perdas salariais. Braide tratou a segurança como um figurante de luxo em seus vídeos, mas deixou para trás uma tropa que clama por estrutura básica para não virar estatística.
Agora, o ex-prefeito mira o Palácio dos Leões. A estratégia é clara: levar o “modelo São Luís” para todo o Maranhão. O perigo, contudo, é que um estado não se governa com filtros de embelezamento. Problemas de drenagem, que engolem milhões em obras invisíveis na primeira tempestade, não são resolvidos com edição de vídeo. Direitos de professores não se pagam com curtidas.
O brilho da tela apagou e o que sobrou foi o buraco no bairro, o ônibus que não vem e o teto que caiu. Eduardo Braide deixou a prefeitura com o saldo de quem soube vender uma cidade que só existia na nuvem.
Para o Maranhão, fica o alerta: o espetáculo pode até ser bonito, mas quando as luzes se apagam e o filtro sai, a realidade costuma cobrar um preço alto demais.