Câmara muda regra do orçamento e vereadores ganham fatia fixa do dinheiro público em Barra do Corda

Foto Reprodução

Uma mudança silenciosa, mas de grande impacto, marcou o início do ano político em Barra do Corda. A Câmara Municipal alterou a legislação local e instituiu as chamadas emendas impositivas, mecanismo que passa a vigorar a partir de 2026 e garante aos vereadores o controle direto sobre 1,55% da Receita Corrente Líquida (RCL) do município, com execução obrigatória pelo Poder Executivo.

Na prática, isso significa que uma fatia fixa do orçamento municipal deixa de ser gerida exclusivamente pela Prefeitura e passa a ser direcionada diretamente pelos parlamentares. Cada vereador poderá indicar onde aplicar sua parcela dos recursos, como reformas de escolas, pavimentação de ruas, construção de praças ou outras ações definidas individualmente.

O ponto que gera alerta é a articulação, nos bastidores, para que essas emendas não sejam destinadas apenas a políticas públicas executadas pelo próprio município, mas também a associações privadas. Em muitos casos, essas entidades — como associações de bairro — não possuem estrutura, transparência nem prestação de serviços relevantes, o que amplia o risco de mau uso do dinheiro público.

A medida vai na contramão do entendimento recente do Supremo Tribunal Federal (STF), que tem endurecido a fiscalização sobre emendas parlamentares. O STF exige transparência, rastreabilidade e controle rigoroso na aplicação dos recursos. Em decisão recente, o ministro Flávio Dino determinou que estados e municípios adotem regras equivalentes às das emendas federais e condicionou, a partir de 1º de janeiro de 2026, a execução das emendas à adequação das leis locais, com exigência de plano de trabalho prévio e mecanismos de controle.

O debate ganha ainda mais peso diante de precedentes no Maranhão. Em São Luís, investigações do Ministério Público e da Polícia apontaram esquemas milionários de desvio de emendas parlamentares envolvendo associações e institutos privados, muitos deles de fachada, usados para projetos fantasmas, lavagem de dinheiro e financiamento político.

Diante desse cenário, a criação das emendas impositivas em Barra do Corda levanta uma pergunta central para a população: haverá controle efetivo e transparência na destinação desses recursos ou o modelo abrirá espaço para desvios semelhantes aos já investigados?

A decisão já foi tomada no papel. A partir de agora, o que se impõe é vigilância redobrada da sociedade, dos órgãos de controle e do Ministério Público.

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