
Se coerência fosse critério para ação no Supremo, talvez o PCdoB tivesse pensado duas vezes antes de bater às portas da Corte contra a nomeação de Daniel Brandão ao TCE-MA. Mas, como o vento político mudou de direção, mudou também o conceito de “moralidade” para o partido — que agora tenta posar de guardião da ética pública, como se ninguém lembrasse do passado recente.
À época da votação no plenário da Assembleia Legislativa, em 2023, o PCdoB não apenas apoiou a indicação de Daniel Brandão como participou ativamente da sua oficialização. Parlamentares da sigla votaram a favor e o decreto legislativo que confirmou Brandão como conselheiro foi assinado pelo então presidente em exercício da Casa, deputado Rodrigo Lago — ele mesmo do PCdoB.
Curioso, não?
O súbito surto de moralidade caiu no colo do STF somente depois que o PCdoB perdeu protagonismo no governo Brandão e viu seu espaço ser reduzido a um banquinho na antessala do poder. A partir daí, a indignação brotou. A ética floresceu. Os olhos abriram. É quase um milagre político.
Se o partido voltar ao governo amanhã, o discurso sobre Daniel Brandão continuará firme ou o “problema técnico” será magicamente sanado?
O PCdoB tenta reciclar imagem, vestir a fantasia de fiscal da moralidade e posar de oposição responsável — tudo isso sem explicar por que a moral só apareceu quando o acesso ao governo sumiu.
No fim das contas, a postura não indigna pela acusação em si, mas pela memória seletiva.
Porque se havia algo errado na indicação, errado estava também quando o partido estava dentro — e não apenas agora, fora.
E essa, convenhamos, é aquela velha lição da política: para certos partidos, ética é igual a Wi-Fi — só funciona quando estão conectados ao poder.